Tipos de contrato de trabalho em Portugal: o guia para quem vai trabalhar no país

TRABALHO E CARREIRA

Tipos de contrato de trabalho em Portugal: o guia para quem vai trabalhar no país

Do contrato sem termo ao recibo verde, entenda cada modalidade de contratação, seus direitos e qual visto combina com cada situação

🌍 Simplifica Portugal 📅 Atualizado: Julho 2026 💬 10 min de leitura

Entender os tipos de contrato de trabalho em Portugal é um passo fundamental para quem está se preparando para trabalhar no país. Afinal, nem sempre o que parece é o que realmente é: o mesmo título de vaga pode vir com modalidades de contratação completamente diferentes, cada uma com suas vantagens, limitações e implicações financeiras.

Se você é brasileiro e está pensando em trabalhar em Portugal, seja com um emprego formal ou como prestador de serviços, este guia vai te ajudar a entender as principais diferenças entre os tipos de contrato, o que esperar em cada situação e como avaliar uma proposta antes de assinar.

O que define um contrato de trabalho em Portugal

De acordo com o artigo 11.º do Código do Trabalho português, o contrato de trabalho é o acordo pelo qual “uma pessoa singular se obriga, mediante retribuição, a prestar a sua atividade a outra ou outras pessoas, no âmbito de organização e sob a autoridade destas.”

Na prática, isso significa que todo contrato de trabalho deve registrar claramente o cargo, a remuneração, o horário e o local de trabalho, a data de início e a duração prevista. Além disso, ele precisa informar o seguro de acidentes de trabalho e o período experimental, quando existir.

Em Portugal, as relações de trabalho são reguladas principalmente pelo Código do Trabalho, complementado por acordos coletivos e fiscalizadas pela ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho). Portanto, o trabalhador tem respaldo legal desde o primeiro dia de contrato.

Os contratos com vínculo empregatício

Quando uma empresa contrata alguém com vínculo formal (o equivalente à CLT no Brasil), existem algumas modalidades possíveis. Cada uma delas tem regras específicas de duração, renovação e rescisão.

Contrato sem termo (efetivo)

O contrato sem termo é o que garante mais estabilidade ao trabalhador. Ele não tem data de encerramento prevista, por isso representa o chamado emprego efetivo. Para o empregador encerrar esse tipo de vínculo, é necessário comprovar justa causa.

Caso o trabalhador queira sair, ele precisa comunicar a empresa com 30 dias de antecedência (para contratos com menos de dois anos) ou 60 dias (para contratos mais longos). É o formato mais próximo do que os brasileiros conhecem como emprego fixo.

Contrato a termo certo

O contrato a termo certo tem data de início e de fim definidas. Ele pode durar no máximo dois anos e, desde as últimas alterações ao Código do Trabalho (Lei 13/2023), admite até quatro renovações, desde que o motivo que justificou a contratação temporária se mantenha.

Quando esse contrato encerra por decisão da empresa, o trabalhador tem direito a uma compensação equivalente a 24 dias de salário base por cada ano completo de trabalho. Portanto, ao receber uma proposta de contrato a termo certo, faz sentido perguntar sobre as chances de efetivação.

Contrato a termo incerto

O contrato a termo incerto também é temporário, mas não tem uma data de fim definida. Ele é usado quando a empresa não consegue prever quando determinada necessidade vai se encerrar, como a substituição de um funcionário afastado sem prazo de retorno. A duração máxima desse tipo de contrato é de quatro anos (Código do Trabalho, art. 148.º).

Ao encerrar, o trabalhador deve receber o aviso com antecedência que varia de 7 a 60 dias, conforme a duração do contrato.

Outros formatos com vínculo

Além dos três principais, também existem o contrato a tempo parcial (part-time), o contrato de muito curta duração (máximo de 35 dias, usado em picos sazonais como turismo e agricultura) e o contrato de trabalho temporário, no qual a empresa contratante não é a empregadora direta. Nesses casos, o vínculo formal é com a agência de trabalho temporário.

Se você está se planejando para vir trabalhar em Portugal com vínculo empregatício, o Visto D1 é o caminho indicado para trabalhadores contratados por uma empresa portuguesa. Saiba mais sobre o Visto D1 aqui.

Recibo verde: o que é e como funciona para trabalhadores imigrantes

O recibo verde, chamado tecnicamente de contrato de prestação de serviços, é uma modalidade de trabalho independente. Diferentemente dos contratos acima, ele não cria vínculo empregatício. Isso significa que o trabalhador não tem direito automático a férias pagas, subsídio de Natal, subsídio de férias ou proteção contra demissão.

Em compensação, o profissional tem mais flexibilidade e pode prestar serviços para múltiplos clientes ao mesmo tempo.

No recibo verde, o trabalhador é responsável por emitir faturas (os recibos verdes) para cada serviço prestado. Também precisa lidar com suas obrigações fiscais diretamente com o Estado: declarar o IRS e contribuir para a Segurança Social.

Quanto à Segurança Social: novos trabalhadores independentes têm isenção das contribuições durante os primeiros 12 meses de atividade. Após esse período, passam a pagar 21,4% sobre a base contributiva, que equivale a aproximadamente um terço do valor faturado (Código do Trabalho / Segurança Social portuguesa).

Um ponto importante que muitos brasileiros não sabem é que as condições do recibo verde podem variar bastante de empresa para empresa. Algumas definem um período de “férias” no acordo, outras incluem benefícios como seguro saúde ou vale-refeição. Há ainda empresas que propõem trabalhar com salário líquido combinado, assumindo o pagamento dos impostos gerados pela contratação. Tudo isso é negociável e não há uma regra única. Por isso, antes de assinar qualquer acordo nessa modalidade, vale conversar abertamente sobre cada um desses pontos e garantir que tudo fique registrado por escrito.

Se você planeja vir a Portugal trabalhar como prestador de serviços, o Visto D2 é voltado exatamente para trabalhadores independentes e empreendedores. Saiba mais sobre o Visto D2 aqui.

Por que tantas empresas preferem contratar por recibo verde

Essa é uma questão que confunde muitos brasileiros recém-chegados a Portugal. A resposta envolve uma combinação de fatores econômicos e fiscais.

Do lado da empresa, contratar por recibo verde reduz os custos trabalhistas: a empresa não precisa pagar a sua parte da Segurança Social (23,75% sobre o salário bruto dos empregados com vínculo formal), nem arcar com os subsídios de férias e de Natal.

Do lado do trabalhador, especialmente no caso de profissionais estrangeiros recém-chegados, o cenário pode ser vantajoso quando há um regime fiscal especial em vigor. Portugal oferece benefícios fiscais para novos residentes que se enquadrem em certas categorias, como o regime IFICI (Incentivo Fiscal à Investigação Científica e Inovação), que substituiu o antigo NHR. Esse regime permite uma alíquota reduzida de IRS para profissionais qualificados durante os primeiros 10 anos de residência. Profissionais com formação superior em áreas estratégicas, como tecnologia, saúde e engenharia, podem ainda verificar se se enquadram no Visto D3 (Altamente Qualificado).

Combinando o recibo verde com um regime fiscal especial, alguns profissionais chegam a ter uma carga tributária significativamente menor nos primeiros anos. Muitas empresas de tecnologia e startups portuguesas aproveitam essa combinação para atrair talentos internacionais.

O coautor do Guia Completo para Morar em Portugal, Marcos Peralta, foi contratado exatamente nessa modalidade e descreve a experiência:

“Fui contratado nesta modalidade e minha empresa oferece o pagamento dos impostos, portanto, tenho uma previsibilidade sobre o valor líquido que irei receber, seguro saúde para mim, minha esposa e filha, férias de 10 dias no ano, além de benefícios relacionados a estudos ou certificações. Então é importante levar em consideração esses pontos, pois não faz parte das obrigações da empresa contratante fornecer esses benefícios.”

Marcos Peralta, coautor do Guia Completo para Morar em Portugal (2025)

O relato ilustra um ponto essencial: o recibo verde em Portugal não é necessariamente precário. Muitas empresas, especialmente no setor de tecnologia, oferecem pacotes de benefícios complementares para atrair profissionais qualificados nessa modalidade. Por isso, ao avaliar uma proposta de recibo verde, você precisa analisar o pacote completo, não apenas o valor bruto.

O período experimental: o que você tem direito desde o início

Independentemente do tipo de contrato assinado, o período experimental é uma fase que merece atenção. Durante esse tempo, tanto o empregador quanto o trabalhador podem encerrar o vínculo sem precisar de justificativa e, em muitos casos, sem pagamento de compensação.

A duração do período experimental varia conforme o tipo de contrato:

  • Contrato sem termo: até 90 dias para a maioria dos trabalhadores; até 240 dias para cargos de alta complexidade ou confiança.
  • Contrato a termo certo: até 30 dias.
  • Contratos inferiores a seis meses: até 15 dias.

O período experimental conta para o tempo de serviço do trabalhador e, durante esse tempo, o profissional já tem direito à remuneração e às contribuições para a Segurança Social. Portanto, ele protege ambas as partes, mas não exime a empresa de pagar o que é devido.

Caso o empregador queira encerrar o contrato após 60 dias de período experimental, precisa dar um aviso prévio de 7 dias. Se já passaram 120 dias, o aviso passa a ser de 30 dias (CGD Saldo Positivo, 2024).

O que analisar antes de assinar qualquer contrato

Seja qual for a modalidade oferecida, alguns pontos merecem atenção antes de você colocar a assinatura:

Tipo de contrato e estabilidade: um contrato a termo certo renovável indefinidamente pode sinalizar que a empresa não pretende efetivar o trabalhador. Pergunte diretamente quais são as perspectivas após o período inicial.

Benefícios complementares: especialmente no recibo verde, os benefícios adicionais podem mudar completamente o valor total da proposta. Seguro saúde, vale-refeição, dias de férias e apoio para certificações são pontos que precisam estar no acordo, de preferência por escrito.

O valor bruto versus o líquido: Portugal tem o sistema de 14 salários (12 mensais mais subsídio de férias e subsídio de Natal). No recibo verde, não há essa obrigatoriedade, então o valor mensal precisará cobrir esse período. Faça as contas antes de aceitar.

Obrigações fiscais: se você estiver no recibo verde, entenda desde o início quem vai pagar os impostos (você ou a empresa como benefício) e qual será sua situação perante a Segurança Social.

Qual visto combina com cada tipo de contrato?

Entender os tipos de contrato é só metade do caminho. A outra metade é garantir que você chegue a Portugal com o visto adequado para a sua situação. Veja a relação direta entre cada modalidade de trabalho e o visto correspondente:

Contrato com vínculo empregatício (sem termo, a termo certo ou incerto): o caminho é o Visto D1, voltado para quem tem proposta de emprego formal em uma empresa portuguesa.

Recibo verde como trabalhador independente: a modalidade indicada é o Visto D2, para prestadores de serviços e empreendedores que vão atuar por conta própria em Portugal.

Recibo verde em área altamente qualificada (tecnologia, saúde, engenharia): profissionais com formação superior em áreas estratégicas podem verificar se se enquadram no Visto D3. Se você trabalha com TI, confira também nosso guia sobre o mercado de tecnologia em Portugal.

Trabalho remoto para clientes ou empresa fora de Portugal: se você quer morar em Portugal sem trocar de empregador ou carteira de clientes, o Visto D9 (Nômade Digital) é o mais adequado.

Quer entender melhor o mercado antes de decidir qual caminho seguir? Leia também nosso artigo completo sobre o mercado de trabalho em Portugal.


Entrar no mercado de trabalho português com clareza sobre as regras de contratação é um diferencial real. Muitos brasileiros aceitam propostas sem entender a diferença entre as modalidades e acabam surpresos com o valor líquido no final do mês ou com a ausência de direitos que esperavam ter.

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